Te Vejo Na MTV!!!

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Julho de 1990.  Aos meus 15 anos, o país começava a experimentar a sensação de ter um presidente eleito por voto direto: Fernando Collor de Mello. A seleção de futebol acabava de nos apresentar nos gramados italianos o fim da era do futebol arte. Na época eu estava no primeiro colegial, escola nova, primeiro emprego de verdade no SENAI, que me dava a agradável sensação de liberdade financeira. O SENAI apesar de ser emprego, era uma escola. Era pago pra estudar. Lá havia essa enorme biblioteca, onde na falta do que fazer, a molecada sentava lá, não pelos livros, mas pela quantidade enorme de revistas. Lembro certo dia, de folhear uma revista e ver uma foto de duas páginas, acho que da Madonna, apontando o dedo em minha direção, junto com um slogan dizendo: “Te vejo na MTV”.

Pra molecada de hoje pode ser difícil imaginar, mas minha geração cresceu num mundo sem informação. Só conhecíamos vídeo-clipes através do Fantástico. Queria ver sua banda nacional favorita na TV? Torça pra ela dar as caras no Chacrinha… A TV na época era direcionada a crianças ou adultos. Só após o estouro de programas como o Matéria-Prima na Cultura, que depois no SBT  virou Programa Livre, que os empresários perceberam que havia um nicho no Mercado não utilizado: os adolescentes.

As meninas ainda tinham Capricho e mais uma dúzias de revistas semelhantes falando a sua linguagem, além de seriados como Confissões de Adolescente. Já nós meninos, tínhamos apenas a recém- reformulada Placar, que passava a ter uma linguagem mais jovem e carregava suas páginas com fotos de garotas de biquini ( Lembro que o comentarista Caio, na época novato no São Paulo, ganhava destaque como o cunhado preferido do povo, devido ao merecido destaque que várias edições davam a beleza de sua irmã)

Em 1990, alugava-se CD’s para gravar em suas fitas K7 e ouví-las no seu Walkman. Sem bluetooth ou MP3. Você tinha de ralar para conhecer novas bandas..

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E foi nesse cenário, que nós, garotos da época, começamos a nos perguntar que diabos seria aquela tal MTV. Uma TV que passa só música o dia inteiro? Como assim?

 “ – Cara, ouvi falar que ela vai pegar com uma antena diferente. Uma tal de UHF! Mas se você fizer um arame Redondo e espetar as extremidades numa lata e colocar o velho Bombril ,pega sim!”

E foi assim que numa tarde de Julho, após chegar do serviço (saia às 14:00 na época – “que tempo bom …que não volta nunca mais”) sentei no sofá e vi os primeiros dois clipes, que mal sabia iriam virar futuros clássicos: Beds are Burning do Midnight Oil (figurinha fácil em radios como 89 e 97) e Epic do Faith No More, que surgiu pra nós junto com a emissora. A emissora, que pertencia ao grupo Abril, não funcionava o dia inteiro. A imagem era ruim pra cacete, mas não havia um adolescente que não curtisse. Casas noturnas como o Front 575, deixavam TVs ligadas durante toda a madrugada, popularizando programas como o LADO B.  O time de VJs (cansei de ouvir a pergunta: O que é VJ?) da época era imcomparável com quaisquer outros que vieram depois. Cuca Lazaroto – a patricinha que até Axel Rose babou, Maria Paula – a amiga doidinha, que depois virou Casseta, Gastão Moreira – o advogado metaleiro, Astrid Fontenelle – a única que tinha cara de jornalista, Luiz Thunderbird – o rockabilly com alguns parafusos a menos, Fábio Massari, vulgo reverendo Massari – a enciclopédia da música e Zeca Camargo, que apresentava chamadas no telejornal, durante comerciais. Depois vieram outros como Didi, Sabrina Parlatore (pra mim a mais gata!), Cazé Peçanha (lembro dele cabeludo, cópia total do visual do vocalista do Live), João Gordo, Marcos Mion, Marina Person, Cris Couto, galera que aos poucos foi sendo retirada da emissora pela rival “Grobu”.

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Inclusive essa estratégia da toda poderosa de exclusividade nas partidas de futebol começou com os vídeo-clipes. Vendo o destaque que a nova emissora estava tendo, a “Grobu” comprava a prioridade de ser a primeira a passar vídeos novos de grandes artistas, como Guns and Roses, Michael Jackson e Madonna. Os mesmos eram anunciados durante toda a semana, e só depois de passarem no Fantástico, a MTV teria a autorização de veiculá-los em sua programação. Clipes novos passavam de hora em hora. Falando em programação como esquecer programas como Caixa Postal 1303,  Lado B, Non-Stop, Teleguiado, o carro chefe Disk MTV, Lual MTV, além dos clássicos Acústicos , também chamados Unpluggeds, que viraram febre em determinado momento.

Creio que o primeiro back sentido pela emissora foi a reformulação da programação. A tal “nova MTV”, onde a maior parte dos vídeo-clipes davam lugar a programas. Daí saiu muita coisa ruim, mas sucessos como VJ por um dia, Piores clipes do mundo, Top TopRock Gol

Como qualquer relacionamento, o meu com a emissora foi esfriando… Hoje olho para esses novos apresentadores com olhos críticos típicos de saudosista. Estamos ficando velhos e rabugentos e já não nos identificamos com a emissora… (mesmo assim ainda curto aquela tal de Marimoon…rs) Enfim, a distância não me permite dizer o que deu errado, deixo essa idéia de post para o Leitão, mas agradeço a velha e boa MTV pela irreverência e os vários tapas na cara da sociedade, e principalmente pela papel que teve na formação de minha geração. Bon voyage e desejo de que um dia voltemos a nos ver na MTV.

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4 Comentários

  1. Verdade hein (tô falando de ter esquecido da Cicarelli…rs)… É que tem muita coisa… esqueci também do Hermes e Renato, que merecia até um post à parte…

    Responder
  2. É impressão minha ou você só assistia a MTV pra bater punheta??? rsrs

    Dentra as VJ’s vc esquece daquela que casou com um jogador famoso ai, tinha um programa que beijava os sapos e deu um “fight”na água salgada hehehe

    Brincadeira a parte, belo post… pra mim o disk MTV vai ficar na saudade.

    Responder
  1. Você aí Chorando pelo Fim da MTV Brasil: Onde Você Estava Quando ela Precisou de Você? | Uatafókin is This!!!

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