Um Conto de UATÁFOKIN: Trinta- Parte II

Conforme o prometido segue a segunda parte dessa minha  incursão literária (risos-mil) motivada por um projeto* de um  livro de contos colaborativo que subiu no telhado.

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Se perdeu a primeira parte, clique aqui


Atônito segui ouvindo o engravatado grisalho que continuou me dizendo que que devido ao caos subsequente às noitadas era difícil para a ACDS localizar as mulheres que dormiram com o Capitão e seus possíveis descendentes. Por isso eles mantinham há quarenta anos uma divisão trabalhando nessas buscas, sempre usando o mesmo modus operandi: após pesquisar e identificar o potencial alvo, o encurralar e disparar uma arma desenvolvida para ativar o gene superpoderoso no indivíduo, ou como descobri depois, incinerá-lo até a morte. Isso vitimou muitos dos meus meios-irmãos identificados.

Lógico que era muita informação para absorver de uma vez e quando consegui raciocinar com alguma clareza o meu primeiro impulso foi de querer sair daquele lugar. Agarrei o engravatado grisalho pelo pescoço, o atirei longe  e quando percebi já estava voando desajeitado e atravessando paredes, até ouvir novamente aquele zumbido e apagar de novo.

Quando acordei já estava em uma cela de contenção e fui informado pelo engravatado grisalho, que aparentemente não havia sofrido nem um simples arranhão(!?), que uma versão desse tal desruptor que me tirara de combate quando fui descoberto havia sido implantada em mim para caso eu não quisesse cooperar. Ressaltou que isso havia sido feito para bem da nação e do meu próprio, que eu não era prisioneiro da ACDS e que  a intenção deles era só me capacitar para eu fazer pleno uso das minhas recém-adquiridas habilidades.

Sim, claro…

Durante os seis meses de treinamentos  descobriram que eu tinha o pacote completo: super-força, voo, velocidade e era praticamente invulnerável. Dominar esses poderes não levou muito tempo, qualquer um que cresceu jogando holo-games já tinha mais ou menos uma idéia do que fazer. Para falar a verdade os treinamentos eram mais direcionados para como lidar com a mídia e com o público seguindo a cartilha da agência do que no uso dos poderes.

Após esse período finalmente me colocaram frente a frente com meu pai biológico, o grande Capitão Solar. Não sabia por onde começar então para quebrar o gelo decidi aos berros perguntar ao imbecil se ele tinha noção das consequências de seus atos. Também quis saber se ele sabia algo sobre a mulher que me colocou no mundo, já que eu não tinha nada a não ser um nome. Ele apenas me encarou olhando para algum ponto no infinito, mas essa reação não foi por desprezo, culpa ou qualquer outro sentimento e sim porque há alguns anos ele estava quase que completamente catatônico. Desde então vinha sendo usado pela ACDS apenas como arma de destruição em massa através de implantes de controle mental.

Ele parecia ter séculos de idade, era todo disforme, cheio de cicatrizes, parte de seus membros eram próteses mecânicas e além de tudo ele usava uma peruca ridícula. Era uma aparência muito diferente da qual eu cresci vendo nos canais de holo-streaming. E isso claro, tinha a mão da agência que usava atores ou imagens pré-gravadas do passado para continuar vendendo o ideal do super-herói perfeito ao público. Felizmente para o pobre diabo seus dias de heroísmos estavam contados, pois agora eles tinham a mim e um plano de aposentadoria definitiva para o bom Capitão já estava traçado:

 

“ Para salvar não só nosso planeta, mas toda a realidade Capitão Solar tombou em batalha levando junto seu arqui-inimigo Rexxxus. Perdemos o maior herói de todos os tempos, mas seu legado continuaria através do agente da ACDS Chris Clarkson que, na tentativa de auxiliar o Capitão em sua batalha final, foi pego em um vórtice temporal regredindo no tempo até a criação de nosso universo. De alguma maneira poucas semanas após a batalha, Clarkson conseguiu retornar à nossa época dotado de habilidades extraordinárias. Em homenagem ao grande herói caído que sempre o inspirou ele decidiu adotar o codinome de S-olar em sua memória˜

 

Claro que nada disso aconteceu de verdade, meu nome nem é Chris Clarkson e o Capitão Solar foi trancado em uma cela e segue vegetando. E vejo Rexxxus com certa frequência no refeitório da agência, é até um cara bacana.

Essa baboseira toda foi invenção da divisão de geradora de conteúdo do governo baseado em uma antiga e já extinta forma de expressão chamada “histórias em quadrinhos”que servia de base para todas falsas origensa de super-seres. Quando relutei em passar por cirurgias plásticas para parecer musculosos e usar implantes de cabelo (sim, além de genes superpoderosos também herdei a calvície do papai) acharam que poderia ser interessante adotar um visual diferente do padrão super-heróico, com um corpo mais esquio, uniforme todo preto, logo minimalista e a cabeça raspada.

Daí a opção por essa origem muito mais complexa do que simplesmente  revelar que eu era o filho perdido do Capitão. Disseram que ela era bem “pós invasão dos escritores britânicos dos anos 90” ou algo assim. Concordei porque era cômodo mesmo não fazendo a menor idéia do que eles queriam dizer com isso, nunca em minhas idas à holo-museus havia visitado as áreas dedicadas a história em quadrinhos.

 

E é isso. Há cerca de um ano e meio eu venho sendo o bastião da comunidade super-heróica, liderando  um renovado Esquadrão da Justiça, salvando o planeta em alguns dias  e em outros apenas servindo como cortina de fumaça para ocultar alguma ação ACDS. Ainda que as vezes eu esteja sendo apenas usado como uma marionete da agência, minha vida parece ter melhorado muito se comparado ao meu passado como tecnocrata há dois anos atrás, não parece?

Parece, mas eu não sinto que melhorou.

Tirando um deslumbramento inicial confesso que sinto o mesmo tédio e apatia dos tempos daquelas reuniões chatas em meu emprego anterior. O fato de eu ter me tornado o ser mais poderoso do planeta não deu mais significado a minha vida do que quando passava horas em um escritório em discussões que não levavam a nada.

Tentando encontrar respostas para esse vazio decidi fazer algumas pesquisas por minha conta e esbarrei em conceito antigo chamado “crise dos trinta”. Segundo ele a maioria das pessoas quando atingem essa idade passam por um momentos complicados. Se dão  conta que a juventude definitivamente se foi e a vida adulta não é nada daquilo que  imaginavam para si. Olham ao redor e sentem que não realizaram nada e que estão na metade de um caminho que não sabem nem onde vai dar.

Acho que esse é o meu diagnóstico.

Descobri também que na busca da cura desse mal, algumas pessoas procuravam dar uma guinada radical em suas vidas, largando família e carreiras bem sucedidas para se aventurar em alguma coisa que trouxesse mais satisfação e realização pessoal. Cheguei a conclusão que é a  hora de eu buscar algo assim, com todos esses poderes eu poderia  fazer mais pela humanidade do que só frustrar invasões alienígenas e afins. Poderia ser um verdadeiro instrumento de mudança, erradicar a fome, guerras, injustiça social e principalmente tirar o controle do planeta dos governos e das grandes corporações que secretamente ditam os destinos de todos, a começar pela própria ACDS.

O desruptor? Desde que fui “recrutado” meus poderes não pararam de evoluir, fui ficando mais forte e mais rápido a cada dia. Dias desses como teste decidi ignorar uma ordem de não intervenção em um país vizinho e enquanto voava até lá comecei a ouvir o zumbido irritante dele.  Só que dessa vez fora uma leve tontura ele não teve nenhum outro efeito. Decidi fingir que ele tinha funcionado e me anulado para que agência ainda pensasse ter controle sobre mim.

Ok, algumas vidas inocentes foram perdidas nesse dia para dar credibilidade à minha farsa, mas se se meu plano de conduzir  a  humanidade a uma era de prosperidade jamais vista der certo, essas baixas não terão sido em vão. E certamente também não serão as últimas, para uma realização  dessa magnitude muito sangue terá que ser derramado.

Mas vai valer a pena, será um grande feito! Tão grande que além de me livrar dessa tal crise dos trinta talvez até me impeça enfrentar outra crise que dizem ser bem pior: a dos  quarenta.


*O projeto não foi para frente, mas os escritores envolvidos acabaram publicando trabalhos individuais e saíram coisas muito boas:

Jornada: Estrada para Hopefall “ de Matheus Forny

“Colônia Humana:Contos”  de Daniel Cúrio

“Uivo de Todos os Lobos”  de Wes Lourenço

“100 Contos Curtos: Fantástico, de Terror, de Ficção Científica, Fantasia e Outros Gêneros”  e Unigênito  da Sil

“A Herdeira dos Sonhos-A Rainha do Forte ”  de Gabriel Sansigolo

Fanfics da Marvel   Tumblr  com ilustrações de Josemi Bezerra

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